domingo, 3 de junho de 2007
Aqui Termino
da ira como uma brasa, como territórios
de bosques incendiados, e desejo
que, como uma árvore vermelha, continue
a propagar a sua chama luminosa.
Mas nos seus ramos não encontraste
apenas cólera: as suas raízes não procuraram
apenas a dor, mas a força,
e eu sou a força de pedra pensativa,
alegria de mão unidas.
Sou, finalmente, livre entre os seres.
Vivo, como o ar, no meio dos seres
e saio da solidão encurralada
para a multidão dos combates,
livre, porque na minha mão vai a tua mão,
conquistando alegrias indomáveis. (...)"
Pablo Neruda - "Aqui termino" in Canto Geral
sábado, 26 de maio de 2007
Os Versos do Capitão

A RAINHA
Proclamei-te rainha.
Há-as mais altas do que tu, mais altas.
Há-as mais puras do que tu, mais puras.
Há-as mais belas do que tu, mais belas.
Mas tu és a rainha.
Quando vais pela rua,
ninguém te reconhece.
Ninguém vê a tua coroa de cristal, ninguém repara
na alfombra de ouro rubro
que pisas ao passar,
a alfombra que não existe.
E,quando surges,
todos os rios marulham
no meu corpo, os sinos
abalam o céu,
e um hino enche o mundo.
Apenas tu e eu,
apenas tu e eu, meu amor,
o escutamos.
Pablo Neruda manteve OS Versos do Capitão durante anos no anonimato. Escrito em "arrebatamentos de amor e fúria", no "clima desconsolado e ardente que lhe deu nascimento", este livro foi publicado entre o Canto general e Las Uvas y el Viento, por um lado, e as Odas elementales, por outro. Os seus versos são "ternos, amorosos, apaixonados e terríveis na sua cólera", e possuem paixão idêntica à que encontramos naqueles em que Pablo Neruda luta contra a injustiça.
Intervalo lírico e íntimo, onde o grande poeta chileno alcança a mesma intensidade de sentimento dos seus Veintes poemas de amor y una canción desesperada.
quinta-feira, 17 de maio de 2007
António Nobre...Só.

Esforço inútil. Tudo é ilusão.
Quantos não cismam nisso mesmo a esta hora
Com uma taça, ou um punhal na mão!
Mas a arte, o lar, um filho, António? Embora!
Quimeras, sonhos, bolas de sabão.
E a tortura do Além e quem lá mora!
Isso é, talvez, minha única aflição.
Toda a dor pode suportar-se, toda!
Mesmo a da noiva morta em plena boda,
Que por mortalha leva...essa que traz.
Mas uma mão: é a dor do pensamento!
Ai quem me dera entrar nesse convento
Que há além da morte e que se chama A PAZ!
Paris, 1891.
sexta-feira, 13 de abril de 2007
O Povo
Na jornada fragorosa
E nas altas canções de luta.
Vi como iam de conquista em conquista.
Só a sua resistência era caminho
E, isolados, eram como estilhaços
Duma estrela, sem boca e sem brilho.
Juntos, na unidade feita silêncio,
Eram o fogo, o canto indestrutível,
A lenta passagem do homem sobre a terra,
Feito profundidades e batalhas.
Eram a dignidade que combatia
O que fora espezinhado, e despertava,
Como um sistema, a ordem das vidas
Que batiam à porta e se sentavam
Com as suas bandeiras na sala central.
De Pablo Neruda, em Canto Geral
E porque é Abril, canta-se a Liberdade...
terça-feira, 27 de março de 2007
Ode à Lua na montanha Emei
brilha sobre a montanha Emei,
sua claridade pálida cai
e corre com as águas do rio Ping.
Deixo Quingsi, esta noite,
rumo às Três Gargantas do Grande Rio,
passo diante de Yuzhou e penso em vós,
não fui capaz de vos dizer adeus.
Considerado há vários séculos um dos mais perfeitos de toda a poesia chinesa, eis um poema de “impossível” tradução.
Trata-se de uma despedida, Li Bai aos 26 anos pede desculpa a um amigo por não o haver visitado.
As referências geográficas e os topónimos (todos na província de Sichuan), que em chinês cadenciam rima e ritmo, desfiguram o poema, em qualquer outra língua.
A lua, do alto do céu, observa a Terra inteira e aproxima os amigos ou amantes distantes, basta que ambos, em lugares diferentes, olhem a Lua exactamente a uma mesma hora. Este poema, dada a inexistência de géneros masculino e feminino na língua chinesa, pode ser dedicado não a um amigo mas a uma mulher, transformando-se num poema de amor.
Poema de Li Bai
Tradução e Notas de António Graça de Abreu
quinta-feira, 22 de março de 2007
Palavra de Poesia
Temes que irrompam dos versos lágrimas
acenos, um olhar, um gesto, sangue?
A praga, o ódio, o asco?
Receias o amor que ela te fala?
O sacrifício, a Hora?
Esta íntima claridade construída?
Temes as sombras,
a noite mais noite em nossos gritos?
Ou receias a esperança,
o sémen, o suor, a seiva trabalhosa?
O amanhã já hoje em nossos passos?
Afrontam-te as raízes?
Espantam-te estas flores?
Amedrontam-te os frutos
que se estão gerando neste ventre a custo?
Ouve irmão: os homens falam aos homens
e se dão as mãos.
De Carlos Aboim Inglez, em "Soma Pouca"
quarta-feira, 21 de março de 2007
Dia Mundial da Poesia
Voz numa pedra
Não adoro o passado
não sou três vezes mestre
não combinei nada com as furnas
não é para isso que eu cá ando
decerto vi Osíris porém chamava-se ele nessa altura Luiz
decerto fui com Isis mas disse-lhe eu que me chamava João
nenhuma nenhuma palavra está completa
nem mesmo em alemão que as tem tão grandes
assim também eu nunca te direi o que sei
a não ser pelo arco em flecha negro e azul do vento
Não digo como o outro: sei que não sei nada
sei muito bem que soube sempre umas coisas
que isso pesa
que lanço os turbilhões e vejo o arco íris
acreditando ser ele o agente supremo
do coração do mundo
vaso de liberdade expurgada do menstruo
rosa viva diante dos nossos olhos
Ainda longe longe essa cidade futura
onde «a poesia não mais ritmará a acção
porque caminhará adiante dela»
Os pregadores de morte vão acabar?
Os segadores do amor vão acabar?
A tortura dos olhos vai acabar?
Passa-me então aquele canivete
porque há imenso que começar a podar
passa não me olhas como se olha um bruxo
detentor do milagre da verdade
a machadada e o propósito de não sacrificar-se não construirão ao sol coisa nenhuma
nada está escrito afinal
Mário Cesariny
domingo, 18 de março de 2007
Convite a beber ao luar...

a estrela do vinho existe no céu. 1
Porque a terra ama o vinho,
as nascentes do vinho existem na terra. 2
Se céu e terra amam o vinho,
amar o vinho é digno dos deuses.
O vinho transparente
espelha a alma pura do homem santo,
o vinho turvo,
o espírito agitado do homem sábio. 3
Se santos e sábios
são grandes bebedores,
porquê procurar os imortais?
Três taças de vinho
concedem a felicidade plena,
um jarro e o universo nos pertence.
Incomparáveis as virtudes do vinho,
mas como explicar isto ao homem sóbrio?
1. Li Bai refere-se às três estrelas jiu qi (Mestres do vinho). Correspondem às estrelas psi, xi e ómega da constelação do Leão.
2. Existe de facto uma povoação chamada Jiuquan (Nascente do vinho) na província de Gansu. Foi fundada no ano 104 pelo imperador Han Wudi e seu nome deriva de uma fonte donde, segundo a lenda, emanava água com gosto a vinho.
3. O mandarim Xu Mo, do século III, disse um dia, completamente embriagado: "Os bêbados chamam "santo" ao vinho puro (qing) e "sábio" ao vinho turvo (zhuo)".
Poema de Li Bai
Tradução e Notas de António Graça de Abreu
quinta-feira, 8 de março de 2007
« Catarina Eufémia »
E eu penso nesse instante em que ficaste exposta
Estavas grávida porém não recuaste
Porque a tua lição é esta: fazer frente
Pois não deste homem por ti
E não ficaste em casa a cozinhar intrigas
Segundo o antiquíssimo método oblíquo das mulheres
Nem usaste de manobra ou de calúnia
E não serviste apenas para chorares os mortos
Tinha chegado o tempo
Em que era preciso que alguém não recuasse
E a terra bebeu um sangue duas vezes puro
Porque eras a mulher e não somente a fêmea
Eras a inocência frontal que não recua
Antígona poisou a sua mão sobre o teu ombro no instante em que morreste
E a busca da justiça continua»
Sophia de Mello Breyner Andresen
sábado, 3 de março de 2007
Iremos à lua
sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007
Poema de Cesariny
Era hua vez dez meninas
de hua aldeia muito probe.
Deu o trangolomanglo nelas
não ficaram senão nove.
Era hua vez nove meninas
que só comeam biscoito.
Deu o trangolomanglo nelas
não ficaram senão oito.
Era hua vez oito meninas
em terras de dom Esparguete.
Deu o trangolomanglo nelas
não ficaram senão sete.
Era hua vez sete meninas
lindas como outras não veis.
Deu o trangolomanglo nelas
não ficaram senão seis.
Era hua vez seis meninas
em landas de Charles Quinto.
Deu o trangolomanglo nelas
não ficaram senão cinco.
Era hua vez cinco meninas
em um triângulo equilatro.
Deu o trangolomanglo nelas
não ficaram senão quatro.
Era hua vez quatro meninas
qu'avondavam só ao mês.
Deu o trangolomanglo nelas
não ficaram senão três.
Era hua vez três meninas
em o paço de dom Fuas.
Deu o trangolomanglo nelas
não ficaram senão duas.
Era hua vez duas meninas
ante um home todo espuma.
Deu o trangolomanglo nelas
transformaram-se em só uma.
Era hua vez uma menina
terrada em coval mui fundo.
Deu o trangolomanglo nela
voltaram as dez ao mundo.
Mário Cesariny

