sexta-feira, 15 de junho de 2007

O Tempo das Giestas

"(...) um casal de adolescentes, deitado na relva, embala numa sucessão de afazeres amorosos, como se ali estivessem apenas os dois (...).
Teresa observa-os pelo canto do olho, sorrindo, enquanto tira dos ombros a écharpe e a dobra e pousa sobre o banco, ao lado da mala. Entretém-se, agora, a ler inscrições gravadas ou desenhadas nas costas do banco: um coração envolvendo os nomes Bruno e Rita; Nuno ama Sónia dois corações entrelaçados Sónia ama Nuno; Daniela ama-me senão morro André..."

Em "O Tempo das Giestas" de José Casanova.

sábado, 9 de junho de 2007

Imagens do G8


(Rostock, protestos Anti-G8)

(Londres, protestos Anti-G8)


(Rostock, manifestação pacífica)



(Rostock)




(Rostock)





(G8)

terça-feira, 5 de junho de 2007

RATM

Depois de sete anos de interregno, os Rage Against the Machine estão de volta. Só podia, depois de tantos disparates do senhor Bush.
Prometem regressar com a mesma energia, com a mesma atitude, com a mesma vontade de mostrar, através das letras, ideais de justiça social. Contra a censura sempre empunhando a bandeira da liberdade.
Ao assistir a este espectáculo nem parece que o quarteto de Los Angeles esteve separado. Voltam a actuar em Julho (Nova York) e Agosto (Califórnia). Até lá, fica este vídeo do Festival Coachella na Califórnia.

domingo, 3 de junho de 2007

Aqui Termino

"Este livro termina aqui. Nasceu
da ira como uma brasa, como territórios
de bosques incendiados, e desejo
que, como uma árvore vermelha, continue
a propagar a sua chama luminosa.
Mas nos seus ramos não encontraste
apenas cólera: as suas raízes não procuraram
apenas a dor, mas a força,
e eu sou a força de pedra pensativa,
alegria de mão unidas.

Sou, finalmente, livre entre os seres.

Vivo, como o ar, no meio dos seres
e saio da solidão encurralada
para a multidão dos combates,
livre, porque na minha mão vai a tua mão,
conquistando alegrias indomáveis. (...)"

Pablo Neruda - "Aqui termino" in Canto Geral

sábado, 2 de junho de 2007

The Clash - Know Your Rights

Numa semana marcada pela luta na defesa dos nossos direitos, aqui fica este vídeo dos The Clash:

sexta-feira, 1 de junho de 2007

Everything to Learn


«Por tudo quanto já se disse não estranha que tanto custe esta obra a penetrar o olhar instituído. Macaquear os ismos se soube sempre em Portugal desde XVI. Que uns quantos o não tenham querido fazer, ou nem podido, tanto pior. Mas cuida-se na cultura portuguesa mais do que lembra o da estrangeira na nostalgia de faltar o original por que se suspira, do que em compreendê-la em sentido único de uma diversidade.»

Bernardo Pinto de Almeida

Legenda da obra reproduzida:
Everything to Learn (William Blake) de Mário Cesariny
colagem a técnica mista sobre platex
57 x 38,5 cm
1968
Colecção particular

Fonte: Mário Cesariny - A imagem em movimento, de Bernardo Pinto de Almeida

quinta-feira, 31 de maio de 2007

The Nightwatchman - The Road I Must Travel

Tom Morello comemorou ontem, dia 30 de Maio, 43 anos de vida e a Taberna assinala o seu aniversário com um vídeo do seu novo projecto a solo, intitulado de The Nightwatchman.



Morello é o mítico guitarrista de Rage Against the Machine (RATM), banda que anunciou o seu final no ano 2000, dada a saída do vocalista Zack de la Rocha. No ano seguinte, o grupo renasce, com novo nome e com novo vocalista. Audioslave, era o nome do projecto que juntava Chris Cornell, ex-vocalista dos Soundgarden, a Tom Morello, Tim Commerford e Brad Wilk, os restantes membros de RATM. Resultado, três discos gravados e um concerto ao vivo em Cuba. Depois de sete anos, já em Fevereiro deste ano, Cornell alega "conflitos pessoais e diferenças musicais" para justificar a sua saída de Audioslave. Tom Morello anuncia dias mais tarde, que os RATM estão de volta chegando mesmo a marcar três concertos nos EUA. Morello justifica esta acção com o facto de sentir que o seu país tem de acordar para a problemática da guerra, pretendendo com estes concertos alertar os americanos.


Mais recentemente e já no âmbito da apresentação do projecto The Nightwatchman, Thomas Morello passou por Portugal, fazendo a 1ª parte do concerto de Dave Mathews Band em Lisboa no passado dia 25 de Maio.

quarta-feira, 30 de maio de 2007

Greve Geral

Trabalhadores da Câmara Municipal do Porto




Trabalhadores da PORTUCEL (Palmela)




Trabalhadores da LISNAVE (Setúbal)


(fotos: da CGTP)

sábado, 26 de maio de 2007

Os Versos do Capitão









A RAINHA

Proclamei-te rainha.
Há-as mais altas do que tu, mais altas.
Há-as mais puras do que tu, mais puras.
Há-as mais belas do que tu, mais belas.

Mas tu és a rainha.

Quando vais pela rua,
ninguém te reconhece.
Ninguém vê a tua coroa de cristal, ninguém repara
na alfombra de ouro rubro
que pisas ao passar,
a alfombra que não existe.

E,quando surges,
todos os rios marulham
no meu corpo, os sinos
abalam o céu,
e um hino enche o mundo.

Apenas tu e eu,
apenas tu e eu, meu amor,
o escutamos.


Pablo Neruda manteve OS Versos do Capitão durante anos no anonimato. Escrito em "arrebatamentos de amor e fúria", no "clima desconsolado e ardente que lhe deu nascimento", este livro foi publicado entre o Canto general e Las Uvas y el Viento, por um lado, e as Odas elementales, por outro. Os seus versos são "ternos, amorosos, apaixonados e terríveis na sua cólera", e possuem paixão idêntica à que encontramos naqueles em que Pablo Neruda luta contra a injustiça.
Intervalo lírico e íntimo, onde o grande poeta chileno alcança a mesma intensidade de sentimento dos seus Veintes poemas de amor y una canción desesperada.

sexta-feira, 25 de maio de 2007

O Tempo das Giestas

"Meus Deus, como é possível? - murmura Teresa, parada no pequeno terraço, com os olhos perdidos no tapume por detrás do qual o rapaz desapareceu. Depois volta a apreciar o mural, aproxima-se, observa atentamente os motivos que o rapaz indicara: É esta a CASA dele - diz, em voz murmurada - bem mo dizia o coração. Desce os quatro degraus que separa o terraço do passeio e inicia o caminho inverso ao que a trouxe ali. Caminha devagar, absorta, concentrada no desfile de memórias que lhe enche o pensamento repetindo-se: Meu Deus, como é possível?, mais de meio século e é como se nada tivesse mudado, os mesmos SONHOS, as mesmas CERTEZAS, tudo igual... a tudo, àquele dia, àqueles dias, como se o tempo estivesse parado, como se só eu tivesse mudado."
Em "O Tempo das Giestas" de José Casanova.

quinta-feira, 24 de maio de 2007

terça-feira, 22 de maio de 2007

Histórias de Almanaque


A mulher estúpida

Um homem tinha uma mulher que era como o mar. O mar altera-se a cada sopro de vento, mas não aumenta nem diminui, nem muda de cor, nem de sabor, e também não fica nem mais duro nem mais mole; mas, depois de o vento passar, fica outra vez calmo, sem se ter transformado noutra coisa. E o homem teve de ir viajar.
Quando partiu, confiou à mulher tudo o que tinha - a casa, a oficina, a horta em redor da casa e o dinheiro que ganhara. «Tudo isto é meu, e também te pertence. Tens de tomar conta de tudo.»
Ela caíu-lhe ao pescoço, chorou e disse-lhe: «Como é que eu posso? Eu que sou uma mulher estúpida.» Mas ele olhou para ela e disse: «Se me amas, és capaz.» E despediu-se dela em seguida. E como a mulher ficasse sozinha, temeu por tudo o que fora confiado às suas fracas mãos e ficou apavorada. Por isso confiou no irmão, um homem mau, que a intrujou. Os bens foram assim diminuido a olhos vistos, e quando ela deu por isso ficou desesperada e não quis comer mais nada, para não diminuir ainda mais os seus haveres, e de noite também não dormia, o que fez com que adoecesse.
Para ali jazia no quarto, pelo que não podia olhar pela casa, que decaíu, o que levou o irmão a vender-lhe a horta e a oficina sem lhe dar conhecimento disso. A mulher lá estava deitada nas suas almofadas, não dizia nada e pensava: «Se eu não disser nada, não digo asneiras, e se não comer, não fico com menos coisas.» Aconteceu assim que, um dia, a casa teve de ser vendida em hasta pública. Veio muita gente de toda a parte, porque era uma bela casa. E a mulher estava deitada no seu quarto e ouvia as vozes e o som do martelo e as pessoas a rirem e a dizerem: «Chove pelo telhado, e a parede está a cair.» Sentiu-se então muito fraca e adormeceu.
Quando voltou a acordar, jazia num catre duro num quarto de madeira. Também só havia uma única janelita lá no alto e um vento frio invadia todos os recantos. Uma velha entrou no quarto e decompô-la asperamente, dizendo-lhe que a casa dela tinha sido vendida, mas que as dívidas ainda não estavam todas pagas e que ela vivia da caridade, mais pelo marido do que por ela. Pois este agora já não tinha nada. A mulher, ao ouvir isto, ficou confusa e um pouco desorientada; levantou-se da cama e começou a trabalhar desde esse dia na casa e nos campos. Andava vestida de andrajos, quase não comia e também nada ganhava, pois não exigia nada. Até que um dia ouviu dizer que o marido tinha voltado. Sentiu uma enorme angústia. Voltou logo para casa, escovou o cabelo e procurou uma belusa nova, mas não encontrou nenhuma.
E cruzou os braços sobre o peito murcho, para o dissimular. Saiu por uma pequena porta das traseiras e correu sem saber para onde.
Depois de ter corrido algum tempo, ocorreu-lhe que se tratava do marido, que viviam juntos, e que ela agora ia a fugir dele. Voltou-se logo para trás e correu em sentido inverso, não pensou mais na casa nem na oficina nem na blusa. Avistou o marido de longe e correu para ele, e pendurou-se-lhe ao pescoço.
O homem, porém, estava no meio da rua, e as pessoas riram-se dele atrás das portas. E ele ficou furioso. Mas tinha a mulher ao pescoço, que não afastava a cabeça dele nem desprendia os braços da sua nuca. E sentiu como ela tremia, e pensou que era de medo por ter deitado tudo a perder. Mas vejam só, ela ergueu finalmente o rosto para ele e ele viu então que não era de medo, mas de alegria, e que era de contentamento que ela tremia. Ocorreu-lhe então qualquer lembrança, e foi a vez de ele vacilar; enlaçou-a, sentiu que ela tinha emagrecido, e esmagou-lhe a boca com um beijo.

Bertold Brecht