quarta-feira, 9 de maio de 2007

Comunidade

[Extractos]

Estendo o pé e toco com o calcanhar numa bochecha de carne macia e morna; viro-me para o lado esquerdo, de costas para o candeeiro; e bafeja-me um hálito calmo e suave; faço um gesto ao acaso no escuro e a mão, involuntária tenaz de dedos, pulso, sangue latejante, descai-me sobre um seio morno nu ou numa cabecita de bebé, com um tufo de penugem preta no cocuruto da careca, a moleirinha latejante; respiramos na boca uns dos outros, trocamos pernas e abraços, bafos suor uns com os outros, uns pelos outros, tão conchegados, tão embrulhados e enleados num mesmo calor como se as nossas veias e artérias transportassem o mesmo sangue girando, palpitassem, compassadamente, silenciosamente, duma igual vivificante seiva.

(...)

Somos cinco numa cama. Para a cabeceira, eu, a rapariga, o bebé de dias; para os pés o miúdo e a miúda mais pequena. Toco com o pé numa rosca de carne meiga e macia: é a pernita da Lina, que dorme à minha frente. Apago a luz cansado de ler parvoíces que só em português é possivel ler, e viro-me para o lado esquerdo: é um hálito levemente soprado, pedindo beijos no escuro que me embala até adormecer. Voltamo-nos, remexemos, tomados pelo medo de estarmos vivos, pela alegria dos sonhos, quem sabe!, e encontramos, chocamos carne, carne que não é nossa, que é um exagero, um a-mais do nosso corpo mas aqui, tão perto e tão quente, é como se fosse nossa carne também: agarrada (palpitante, latejando) pelos nossos dedos; calada (dormindo, confiante) encostada ao nosso suor.

(...)

Luiz Pacheco,
("Comunidade", Contraponto, 1964)

segunda-feira, 7 de maio de 2007

Editorial

Entrámos no mês de Maio. A primavera já chegou, é tempo de recomeço da vida, costuma-se dizer. Na natureza tudo renasce e nasce. Pelo país fora multiplicam-se festas populares. Ontem Alberto João ganhou as eleições no jardim da Madeira... surpresa!!! Não fosse ele e os seus deputados os Patrões da esmagadora maioria da população. Em França venceu o candidato da direita, nada de bom. Mas avanços também se dão, Hugo Chávez, anunciou um conjunto de medidas na continuação da chamada Revolução Bolivariana, aumentos significativos para os trabalhadores e nova fase na nacionalização do petróleo.
Mas, Maio, é tempo de balanços também.
Realiza-se mais uma edição do Super Bock, Super Rock tirando a propaganda a uma marca de uma empresa do sr. Pires de Lima que respeita pouco os seus trabalhadores valerá certamente a pena por alguns dos concertos.
Maio é o último mês antes do inicio de três meses em que parte dos portugueses irão de férias aos poucos. Parte porque nem todos terão esse direito, para alguns (muitos) as férias servirão para ficarem fechados em casa a multiplicar as amarguras do resto do ano e o dinheiro do subsídio (para os que o têm, já que muitos dos milhares de precários nem a isso têm direito) servirá apenas para reduzir as dívidas.
Maio começou com enormes manifestações do dia do trabalhador e terminará com uma Greve Geral, há quem diga que esta não se justifica... Fica a pergunta o que se faz quando os salários pouco aumentam, os preços aumentam brutalmente, os grupos económicos tem lucros de milhões e milhões o Governo aprova uma lei das praças de Jorna (mais conhecida por trabalho temporário), prepara-se para aprovar o despedimento sem justa causa conhecido pelo pomposo termo de "Flexisegurança"... o que se faz perante isto tudo? certamente que quem diz que não se justifica uma Greve acha que perante isto se devia assobiar. Mas assobiem eles.
Quanto à Taberna, que atingiu este mês as duas mil visitas, comemorou e reivindicou o 1º de Maio e celebra agora o 82º aniversário de Luiz Pacheco. Força!

Parabéns Pacheco!

Luís José Gomes Machado Guerreiro Pacheco, nasceu a 7 de Maio de 1925 em Lisboa. Escritor, editor, polemista, etc., certamente que foi tudo aquilo que queria ser, disse tudo o que tinha para dizer. E ainda diz, felizmente. A Taberna dá os parabéns a Luiz Pacheco com um pequeno filme que assinala o início de uma semana que lhe será dedicada. Parabéns Pacheco!

Fontes:
Entrevista de Miriam Assor / Correio Domingo 2007-04-08
Entrevista de Pedro Dias de Almeida / VISÃO nº 652 1 Set. 2005
Filme de António José de Almeida / Luiz Pacheco, Mais um Dia de Noite
Música de Astor Piazzola / Adios Nonino, do albúm com o mesmo nome

sexta-feira, 4 de maio de 2007

Histórias de Almanaque


O médico Hunain e o Califa

O médico Hunain foi chamado à presença do califa. O califa queria veneno para os seus inimigos. Prometeu ao médico riquezas se ele obedecesse e a prisão, se levantasse dificuldades.
Depois de passar um ano na cadeia, Hunain foi de novo arrastado até à base do trono. De um lado, amontoavam-se pedras preciosas, no outro lado viam-se instrumentos de tortura. O califa apontou com o dedo primeiro para um monte, depois para o outro.
«O que é que vai ser?» perguntou ele. Hunain respondeu-lhe: «Eu só aprendi a arte de curar, mais nenhuma outra.» O califa fez sinal ao carrasco e Hunain, sentindo chegada a hora derradeira, disse: «No dia do juízo, Deus me recompensará. Se o califa quer cometer um pecado, isso é lá com ele.» O sorriso do califa quebrou a tensão. Nunca fora sua intensão ferir o médico; apenas queria pôr à prova a sua honestidade.

Bertold Brecht

quarta-feira, 2 de maio de 2007

segunda-feira, 30 de abril de 2007

Acabou o tempo... Proteja Darfur.


Quantas mais mortes, violações e vidas destruídas no Darfur serão necessárias para que a comunidade internacional actue de forma a pôr fim a esta situação?

Desde 2003, o Darfur, no Sudão Ocidental, está envolvido num conflito mortal. Várias centenas de milhares de pessoas foram mortas ou seriamente feridas. Mais de dois milhões de pessoas foram deslocados e vivem em campos de deslocados no Sudão ou em campos de refugiados no Chad; mais de 3,5 milhões de pessoas dependem da ajuda internacional para sobreviver.

A violação e outras formas de violência sexual estão a ser utilizadas diariamente como armas de guerra no Darfur. A violação de mulheres e meninas - incluindo meninas de apenas 8 anos - é generalizada. Quando empregue como parte de um ataque generalizado ou sistemático dirigido contra qualquer população civil, a violação constitui um crime contra a humanidade.


As fotos estão disponíveis no site da Globe for Darfur (www.globefordarfur.org) e há um video no site da BBC.

sábado, 28 de abril de 2007

Histórias de Almanaque


A guerra dos Balcãs

Um homem velho e doente seguia por um campo fora. Quatro rapazes assaltaram-no e despojaram-no dos seus haveres. O velho seguiu contristado o seu caminho. Mas no cruzamento seguinte viu, com grande espanto seu, que três dos ladrões assaltavam o quarto para lhe tirarem o produto do roubo. Este, no entanto, caiu no chão durante a refrega. Cheio de alegria, o velho juntou-o e apressou-se a sair dali. No entanto, foi detido na cidade mais próxima e levado à presença do juiz. Os quatro rapazes lá estavam e apresentaram queixa contra ele, agora de novo unidos. O juiz, porém, decidiu da seguinte maneira: O velho tinha que devolver todos os seus bens aos rapazes. «Caso contrário», disse o sábio e justo juiz, «os quatros indivíduos ali presentes poderiam causar distúrbios no país.»

Bertold Brecht

quarta-feira, 25 de abril de 2007

25 de Abril de 1974

Paulo de Carvalho - E depois do Adeus

«"E depois do Adeus" foi a canção que serviu de senha de início da revolução de 25 de Abril de 1974. Com letra de José Niza e música de José Calvário a canção foi escrita para ser interpretada por Paulo de Carvalho na 12ª edição do Festival RTP da Canção, do qual tinha saido vencedora pouco tempo antes.

Com a transmissão de "E depois do adeus", pelo Emissores Associados de Lisboa às 22h55m do dia 24 de Abril de 1974, era dada a ordem de partida para a saída dos quartéis .»

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

terça-feira, 24 de abril de 2007

Preâmbulo da constituição da República Portuguesa de 1976

«A 25 de Abril de 1974, 0 Movimento das Força Amadas, coroando a longa resistência do povo português e interpretando os seus sentimentos profundos, derrubou o regime fascista.

Libertar Portugal da ditadura, da opressão e do colonialismo representou uma transformação revolucionária e o início de uma viragem histórica da sociedade portuguesa.

A Revolução restituiu aos portugueses os direitos e liberdades fundamentais. No exercício destes direitos e liberdades, os legítimos representantes do povo reúnem-se para elaborar uma Constituição que corresponde às aspirações do país.

A Assembleia Constituinte afirma a decisão do povo português de defender a independência nacional, de garantir os direitos fundamentais dos cidadãos, de estabelecer os princípios basilares da democracia, de assegurar o primado do Estado de Direito domocrático e de abrir caminho para uma sociedade socialista, no respeito da vontade do povo português, tendo em vista a construção de um país mais livre, mais justo e mais fraterno.

A Assembleia Constituinte, reunida na sessão plenária de 2 de Abril de 1976, aprova e decreta a seguinte Constituição da República Portuguesa.»

segunda-feira, 23 de abril de 2007

Cheira a liberdade

Desculpem mas penso que o autor em vez de "cheirinho a alecrim" queria cantar CHEIRA A LIBERDADE!