quinta-feira, 19 de abril de 2007

"Porquê o Socialismo?"


Einstein escreveu este artigo especialmente para o lançamento da Monthly Review, cujo primeiro número foi publicado em Maio de 1949. O artigo original encontra-se em http://www.monthlyreview.org/598einst.htm.

«(...) A produção é feita para o lucro e não para o uso. Não há nenhuma disposição em que todos os que possam e queiram trabalhar estejam sempre em posição de encontrar emprego; existe quase sempre um "exército" de desempregados. O trabalhador está constantemente com medo de perder o seu emprego. Uma vez que os desempregados e os trabalhadores mal pagos não fornecem um mercado rentável, a produção de bens de consumo é restrita e tem como consequência a miséria. O progresso tecnológico resulta frequentemente em mais desemprego e não no alívio do fardo da carga de trabalho para todos. O motivo lucro, em conjunto com a concorrência entre capitalistas, é responsável por uma instabilidade na acumulação e utilização do capital que conduz a depressões cada vez mais graves. A concorrência sem limites conduz a um enorme desperdício do trabalho e a esse enfraquecimento da consciência social dos indivíduos que mencionei anteriormente.

Considero este enfraquecimento dos indivíduos como o pior mal do capitalismo.

Todo o nosso sistema educativo sofre deste mal. É incutida uma atitude exageradamente competitiva no aluno, que é formado para venerar o sucesso de aquisição como preparação para a sua futura carreira.
Estou convencido que só há uma forma de eliminar estes sérios males, nomeadamente através da constituição de uma economia socialista, acompanhada por um sistema educativo orientado para objectivos sociais. Nesta economia, os meios de produção são detidos pela própria sociedade e são utilizados de forma planeada. Uma economia planeada, que adeqúe a produção às necessidades da comunidade, distribuiria o trabalho a ser feito entre aqueles que podem trabalhar e garantiria o sustento a todos os homens, mulheres e crianças. A educação do indivíduo, além de promover as suas próprias capacidades inatas, tentaria desenvolver nele um sentido de responsabilidade pelo seu semelhante em vez da glorificação do poder e do sucesso na nossa actual sociedade.»


Caderno Vermelho 13

quarta-feira, 18 de abril de 2007

Bento de Jesus Caraça

Nasceu faz hoje 106 anos, em Vila Viçosa, Bento de Jesus Caraça. Matemático licenciado pelo ISCEF, fundador de associações nesse campo. "Biblioteca Cosmos" foi uma delas. Prestadora de cursos e conferências, esta associação fora editora de livros de divulgação científica, tendo publicado mais de uma centena de livros.
Mas Caraça, foi também um resistente antifascista. Militante do Partido Comunista Português, é, em 1946, preso pela PIDE e demitido de professor catedrático do ISCEF. Faleceu, vítima de doença cardíaca, dois anos mais tarde.
Hoje, Bento de Jesus Caraça dá nome a inúmeras ruas e a uma Escola Profissional, fruto de uma acção conjunta por parte da CGTP-IN e das Uniões Sindicais das regiões onde a Escola tem delegações.

segunda-feira, 16 de abril de 2007

Histórias de Almanaque


A Iluminação

Um homem de meia idade passeava uma tarde na Alameda dos Choupos quando, ao ver um cão grande que andava atrás das pombas ao longo de um ribeiro escuro, se apercebeu de que não era desejado. Seguiu imediatamente para casa.
Nada de especial tinha acontecido nesse dia. Os negócios corriam-lhe bem, na única rapariga das suas relações que não era estúpida. Alguém contara de manhã no barbeiro a história do pequeno Apfelböck que, com treze anos, assassinara a tiro os pais. O homem tinha os joelhos a tremer ao subir as escadas. Quando se ocupava de novo com o estudo do caso Apfelböck (o rapaz guardara os cadáveres dos pais num caixote durante sete dias), ocorreu-lhe subitamente a ideia de que no dia seguinte poderia matar, sem mais, o dentista, talvez com a faca. O dentista tinha o pescoço gordo e branco. Mas podia também não o matar.
Queria sentar-se ao piano para tocar Haydn; mas Apfelböck tinha esperado sete dias, e durante esse tempo (por causa do cheiro) tinha ido primeiro para o canapé da sala de estar e depois para a varanda. Isso é que Haydn não conseguia fazer esquecer.
O homem andou às voltas no quarto escuro de uma janela para a outra; olhava para o vazio, para os telhados azuis na distância e torcia as mãos. Não era possível aguentar isto. Faziam agora sete dias.
Deitou-se então na cama. Ninguém era responsável, pensou ele.
O astro é puramente provisório. Gira sibilando juntamente com muitos outros, numa fila de matéria astral, em volta de uma estrela da Vila Láctea. Não se pode ter qualquer responsabilidade num astro como este, pensou ele. Mas então fez-se demasiado escuro na cama.

Teve de se levantar e de acender velas; encontrou cinco. Pegou nelas, acendeu-as e dispô-las nas extremidades da cama: duas á cabeceira, duas aos pés e uma em cima da mesinha de cabeceira. Eram cinco luzes. Isto deve ter qualquer significado, pensou. Então, depois de ter tido todo este trabalho, sentiu o cheiro dos cadáveres dos pais. Teria de ir para a varanda? Isso é que ele não fazia de modo algum. Tratava-se de fantasmagorias. Também não havia varanda.

Se eu morresse, disse o homem de si para si; mas não se consegue sair do círculo. Estou apanhado. A coberta é vermelha, quer eu queira quer não queira, mesmo que eu morra continua vermelha. A coberta é mais forte do que eu. Não tem de certeza qualquer desejo. Não pode tornar-se idiota.
As moscas zumbiam. Apanhou uma. Para isso ajoelhou-se na cama e moveu-se ao longo da parede com as mangas da camisa a esvoaçar. À luz de cinco velas. Quando a apanhou, pensou: Uma ocupação útil à hora da morte.
Se eu morresse, pensou. Gostaria de ter um filho. Talvez eu tenha um filho. Se eu morrer, nenhum galo cantará. Se continuar vivo, também nenhum galo cantará. Faça eu o que fizer, nem um só cantará.
O homem levantou-se inquieto e vestiu um capote militar por cima da camisa. Saiu assim para a rua. Não estava demasiado escuro; viam-se passar nuvens, húmidas, acasteladas.
As chaminés negras recortavam-se rígidas contra o céu. O homem seguiu caminho, com as mãos nos bolsos. Murmurava: «Como são doces as lágrimas de uma noiva, quando o noivo lhe dá um soco nos olhos.» Depois, estugou o passo, ultrapassou outros transeuntes, cantando por fim em voz alta, em camisa, pois desfizera-se do capote - não era preciso capote num astro como este.
Corria cantando salmos pelas ruas e não quis saber de mais nada.

Bertold Brecht

sexta-feira, 13 de abril de 2007

19 de Abril, Sessão de lançamento "O Tempo das Giestas"

Foi no ano de 2002 que José Casanova fez a sua estreia literária, presenteando-nos com o romance “O Caminho das Aves”. Um romance que nos dá um retrato dos tempos do fascismo, uma visão da luta travada pela geração de 60 contra a violenta repressão fascista. Francisco com os seus camaradas e amigos fazem parte dessa luta resistente. Mas este “Caminho das Aves” – para quem não o leu, aconselho vivamente – traz-nos também os amores e desamores, deu-me a mais bela definição da amizade, que é “a amizade é a entrega em troca de nada, dispensa condições, não as suporta aliás”.

Como a caneta de quem escreveu um “O Caminho das Aves” não podia ficar parada, chegou-nos, em 2005, “Aquela Noite de Natal”. A história decorre na mesma época e com os mesmos personagens do antecedente. Nas palavras de um amigo “este livro é um hino ao amor”. Concordo plenamente, os leitores sentem um enorme sôfrego até chegar ao fim da história para assistir ao que o narrador nos escondia, um ternurento momento.

E porque não há duas sem três, e tudo isto na sequência do meu post anterior, chega-nos a terceira obra deste autor, “O Tempo das Giestas”. Que promete ser tão empolgante e viciante quanto os antecedentes.
Desta forma a não perder a apresentação, esta semana, do novo romance, de José Casanova.

O Tempo das Giestas
Dia 19 de Abril – 18h30 – Casa do Alentejo (Rua das Portas de Santo Antão - Lisboa), com apresentação de Domingos Lobo.

O Tempo das Giestas

Chove, agora, uma chuva miudinha, embora contínua. O vento, depois do temporal que durante a noite assolou o Tejo, amainou e sopra fraco. As gaivotas serenaram, pairam sobre o rio, soltam os seus gritos de tempo de bonança, fazem voos picados como se fossem mergulhar e elevam-se, roçando as águas, amiúde com peixes presos nos bicos.
Simão espera-a junto à Torre, abrigado no seu guarda-chuva grande, acompanhando os movimentos das gaivotas, agora voltando-se, vendo-a, dirigindo-se-lhe em passo acelerado, quase a correr, a correr, no rosto um sorriso feliz. Pega-lhe nas mãos, segurando o guarda-chuva com o pescoço e o ombro: Ainda bem que vieste — murmura. Depois tira-lhe a sombrinha, devolve-lha fechada, ficam os dois sob o guarda-chuva, repete: Ainda bem que vieste.

Excerto retirado do livro "O Tempo das Giestas" de José Casanova

O Povo

O povo passeava as suas bandeiras rubras
E estive no meio deles, na pedra que tocavam,
Na jornada fragorosa
E nas altas canções de luta.
Vi como iam de conquista em conquista.
Só a sua resistência era caminho
E, isolados, eram como estilhaços
Duma estrela, sem boca e sem brilho.
Juntos, na unidade feita silêncio,
Eram o fogo, o canto indestrutível,
A lenta passagem do homem sobre a terra,
Feito profundidades e batalhas.
Eram a dignidade que combatia
O que fora espezinhado, e despertava,
Como um sistema, a ordem das vidas
Que batiam à porta e se sentavam
Com as suas bandeiras na sala central.

De Pablo Neruda, em Canto Geral

E porque é Abril, canta-se a Liberdade...

quinta-feira, 12 de abril de 2007

O primeiro homem no espaço

Em 12 de Abril de 1961, aos 27 anos de idade, Yuri Gagarin, tornou-se o primeiro ser humano a ir ao espaço, a bordo na nave Vostok 1, na qual deu uma volta completa em órbita ao redor do planeta e proferiu a famosa frase “A Terra é azul”. (fonte Wikipédia)

quarta-feira, 11 de abril de 2007

Editorial

Em Março foram lutas mil, em Abril comemoram-se Liberdades mil, sempre com a convicção de que outro caminho é possível, que o fatalismo que rege a nossa sociedade terá, sem sombra de dúvida, um fim.


O passado mês foi pródigo em polémicas. O branqueamento do passado brutal, violento e repressivo do regime fascista perpetrado pelo ditador Oliveira Salazar, esteve no topo das controvérsias, através do programa da RTP. Mas só houve tanto alarido porque este foi descarado, ou seja, à vista de todos. Com tudo isto, questionamos desde o vigésimo quinto dia do ano de mil novecentos e setenta e quatro – todos de nós não éramos nascidos mas só de pensar no que foi e representa, enche-nos o corpo de alegria – não temos vindo a assistir ao surgimento de um fascismo em pezinhos de lã? Até o observador mais distraído tem consciência disso, vejamos pelas políticas adoptadas que mais não fazem do que um assalto às mais elementares conquistas sociais, laborais e culturais. Teremos necessidade de nos justificar mais? Não! Basta comparar a Constituição da República criada na altura, com a actual.

Sobre outro acontecimento, o malfadado cartaz de uns tais "Renovadores Nacionalistas" na rotunda do Marquês do Pombal, em Lisboa, não alonguemos muito, até porque, como o seu líder afirma, está a ter mediatismo demais, conclui-se com a única conclusão possível, e porque os gatos não são parvos, "Nacionalismo é Parvoíce".


Sendo a essência desta taberna a Resistência, e resistência, diga-se, significa luta, saudamos as lutas promovidas pelos trabalhadores afectos à CGTP-IN, nomeadamente a gigantesca luta dos trabalhadores de dia 2 de Março, e também, a grande manifestação de jovens do dia 28 de Março. É com confiança que olhamos para a magnífica luta dos jovens, pois, é com demonstrações deste género, que facilmente se afirma que a resistência está presente no seu seio, dando aos menos jovens a certeza de que SIM «transformar o sonho em vida» é possível!


Em nome deste colectivo de Taberneiros, agradeço a todos os clientes visitantes por termos ultrapassado a bonita marca de mil visitas. Como o ditado diz, Abril águas mil, perdoem-me o enquadramento do ditado para a Taberna da Resistência, visitantes mil, mas sem dúvida a mais importante, Abril Liberdades mil.

terça-feira, 10 de abril de 2007

"Há sempre Alguém que Resiste, Há sempre Alguém que Diz Não"

Graças à sugestão de um cliente nosso, vimos recordar, um homem dotado de uma grande voz, um músico da liberdade, um importante artista resistente da segunda metade do século XX, que cedo nos deixou.

Cito as palavras que me levaram a fazer esta homenagem “o Adriano, se fosse vivo, faria hoje (9 de Abril) 65 anos. Recordemo-lo, então – e às suas belíssimas canções de resistência e de amor; e à sua voz límpida e pura; e ao seu jeito fraterno e solidário; e à sua coerência revolucionária; e ao seu exemplo de camarada”.


quinta-feira, 29 de março de 2007

Juventude em luta


As avenidas e ruas de Lisboa encheram-se de jovens trabalhadores em protesto. Vindos de todo o país, responderam ao repto da Interjovem. A manifestação que começou no Rossio e terminou em frente da Assembleia da República pretendeu contestar a precariedade laboral e exigir a estabilidade no trabalho. Em frente ao Parlamento, Célia Lopes, da Interjovem, e Carvalho da Silva, da CGTP-IN, apelaram ao reforço da luta contra as políticas governamentais.

(fonte ORL do PCP)

terça-feira, 27 de março de 2007

Ode à Lua na montanha Emei

A Lua de Outono, em quarto crescente,
brilha sobre a montanha Emei,
sua claridade pálida cai
e corre com as águas do rio Ping.
Deixo Quingsi, esta noite,
rumo às Três Gargantas do Grande Rio,
passo diante de Yuzhou e penso em vós,
não fui capaz de vos dizer adeus.

Considerado há vários séculos um dos mais perfeitos de toda a poesia chinesa, eis um poema de “impossível” tradução.
Trata-se de uma despedida, Li Bai aos 26 anos pede desculpa a um amigo por não o haver visitado.
As referências geográficas e os topónimos (todos na província de Sichuan), que em chinês cadenciam rima e ritmo, desfiguram o poema, em qualquer outra língua.
A lua, do alto do céu, observa a Terra inteira e aproxima os amigos ou amantes distantes, basta que ambos, em lugares diferentes, olhem a Lua exactamente a uma mesma hora. Este poema, dada a inexistência de géneros masculino e feminino na língua chinesa, pode ser dedicado não a um amigo mas a uma mulher, transformando-se num poema de amor.

Poema de Li Bai
Tradução e Notas de António Graça de Abreu

quinta-feira, 22 de março de 2007

Palavra de Poesia

Receias a palavra da poesia?
Temes que irrompam dos versos lágrimas
acenos, um olhar, um gesto, sangue?
A praga, o ódio, o asco?
Receias o amor que ela te fala?
O sacrifício, a Hora?
Esta íntima claridade construída?
Temes as sombras,
a noite mais noite em nossos gritos?
Ou receias a esperança,
o sémen, o suor, a seiva trabalhosa?
O amanhã já hoje em nossos passos?
Afrontam-te as raízes?
Espantam-te estas flores?
Amedrontam-te os frutos
que se estão gerando neste ventre a custo?

Ouve irmão: os homens falam aos homens
e se dão as mãos.

De Carlos Aboim Inglez, em "Soma Pouca"