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sexta-feira, 15 de junho de 2007

O Tempo das Giestas

"(...) um casal de adolescentes, deitado na relva, embala numa sucessão de afazeres amorosos, como se ali estivessem apenas os dois (...).
Teresa observa-os pelo canto do olho, sorrindo, enquanto tira dos ombros a écharpe e a dobra e pousa sobre o banco, ao lado da mala. Entretém-se, agora, a ler inscrições gravadas ou desenhadas nas costas do banco: um coração envolvendo os nomes Bruno e Rita; Nuno ama Sónia dois corações entrelaçados Sónia ama Nuno; Daniela ama-me senão morro André..."

Em "O Tempo das Giestas" de José Casanova.

sexta-feira, 25 de maio de 2007

O Tempo das Giestas

"Meus Deus, como é possível? - murmura Teresa, parada no pequeno terraço, com os olhos perdidos no tapume por detrás do qual o rapaz desapareceu. Depois volta a apreciar o mural, aproxima-se, observa atentamente os motivos que o rapaz indicara: É esta a CASA dele - diz, em voz murmurada - bem mo dizia o coração. Desce os quatro degraus que separa o terraço do passeio e inicia o caminho inverso ao que a trouxe ali. Caminha devagar, absorta, concentrada no desfile de memórias que lhe enche o pensamento repetindo-se: Meu Deus, como é possível?, mais de meio século e é como se nada tivesse mudado, os mesmos SONHOS, as mesmas CERTEZAS, tudo igual... a tudo, àquele dia, àqueles dias, como se o tempo estivesse parado, como se só eu tivesse mudado."
Em "O Tempo das Giestas" de José Casanova.

terça-feira, 22 de maio de 2007

Histórias de Almanaque


A mulher estúpida

Um homem tinha uma mulher que era como o mar. O mar altera-se a cada sopro de vento, mas não aumenta nem diminui, nem muda de cor, nem de sabor, e também não fica nem mais duro nem mais mole; mas, depois de o vento passar, fica outra vez calmo, sem se ter transformado noutra coisa. E o homem teve de ir viajar.
Quando partiu, confiou à mulher tudo o que tinha - a casa, a oficina, a horta em redor da casa e o dinheiro que ganhara. «Tudo isto é meu, e também te pertence. Tens de tomar conta de tudo.»
Ela caíu-lhe ao pescoço, chorou e disse-lhe: «Como é que eu posso? Eu que sou uma mulher estúpida.» Mas ele olhou para ela e disse: «Se me amas, és capaz.» E despediu-se dela em seguida. E como a mulher ficasse sozinha, temeu por tudo o que fora confiado às suas fracas mãos e ficou apavorada. Por isso confiou no irmão, um homem mau, que a intrujou. Os bens foram assim diminuido a olhos vistos, e quando ela deu por isso ficou desesperada e não quis comer mais nada, para não diminuir ainda mais os seus haveres, e de noite também não dormia, o que fez com que adoecesse.
Para ali jazia no quarto, pelo que não podia olhar pela casa, que decaíu, o que levou o irmão a vender-lhe a horta e a oficina sem lhe dar conhecimento disso. A mulher lá estava deitada nas suas almofadas, não dizia nada e pensava: «Se eu não disser nada, não digo asneiras, e se não comer, não fico com menos coisas.» Aconteceu assim que, um dia, a casa teve de ser vendida em hasta pública. Veio muita gente de toda a parte, porque era uma bela casa. E a mulher estava deitada no seu quarto e ouvia as vozes e o som do martelo e as pessoas a rirem e a dizerem: «Chove pelo telhado, e a parede está a cair.» Sentiu-se então muito fraca e adormeceu.
Quando voltou a acordar, jazia num catre duro num quarto de madeira. Também só havia uma única janelita lá no alto e um vento frio invadia todos os recantos. Uma velha entrou no quarto e decompô-la asperamente, dizendo-lhe que a casa dela tinha sido vendida, mas que as dívidas ainda não estavam todas pagas e que ela vivia da caridade, mais pelo marido do que por ela. Pois este agora já não tinha nada. A mulher, ao ouvir isto, ficou confusa e um pouco desorientada; levantou-se da cama e começou a trabalhar desde esse dia na casa e nos campos. Andava vestida de andrajos, quase não comia e também nada ganhava, pois não exigia nada. Até que um dia ouviu dizer que o marido tinha voltado. Sentiu uma enorme angústia. Voltou logo para casa, escovou o cabelo e procurou uma belusa nova, mas não encontrou nenhuma.
E cruzou os braços sobre o peito murcho, para o dissimular. Saiu por uma pequena porta das traseiras e correu sem saber para onde.
Depois de ter corrido algum tempo, ocorreu-lhe que se tratava do marido, que viviam juntos, e que ela agora ia a fugir dele. Voltou-se logo para trás e correu em sentido inverso, não pensou mais na casa nem na oficina nem na blusa. Avistou o marido de longe e correu para ele, e pendurou-se-lhe ao pescoço.
O homem, porém, estava no meio da rua, e as pessoas riram-se dele atrás das portas. E ele ficou furioso. Mas tinha a mulher ao pescoço, que não afastava a cabeça dele nem desprendia os braços da sua nuca. E sentiu como ela tremia, e pensou que era de medo por ter deitado tudo a perder. Mas vejam só, ela ergueu finalmente o rosto para ele e ele viu então que não era de medo, mas de alegria, e que era de contentamento que ela tremia. Ocorreu-lhe então qualquer lembrança, e foi a vez de ele vacilar; enlaçou-a, sentiu que ela tinha emagrecido, e esmagou-lhe a boca com um beijo.

Bertold Brecht

sexta-feira, 11 de maio de 2007

O libertino passeia por Braga, a idolàctrica, o seu esplendor

[Extractos]

Saio para a rua e vou à cata dos dois pequenos libertinos ricos. Passeio pelas ruas de Braga, sigo ora uma ora outra, deito olhares de megatoneladas, fumo. O cinema ainda não acabou. Vigio de longe o jogo amoroso duma mocinha a palrar na rua com um maçanito, muito gesticulosa, muito espalha-brasas, e com o corpo todo pendurado para cima dele que com a mão esquerda na algibeira vai entretendo o caralho com as promessas que a vista lhe está a demonstrar.

(...)Faço o meu primeiro engate de magala, na rua. Não me digam tragédias: é facílimo. É a coisa mais natural do mundo!

(...) -`tão, nada feito - diz a sua honra camponesa, e pela primeira vez noto como me apetecia aquele corpo, ser dono ou servo daquele aparato movediço de carne, pele, ossos, pêlos, força. E também me parece que ele está pronto a ir atrás de uma promessa, duma mentira qualquer, e que a recusa pela venda comercial é onde ele esconde sua pronta adesão. Talvez o seu vício. Mas para comercial, comercial e meio.

(...) Descemos um carreiro em bico à direita da estrada. Escuridão. É o lugar ideal para mijar, cagar ou brochar discretamente. Calculo que ele está a provocar-me com o caralho fora das calças, quer festa, mas eu estou muito senhor de mim.

(...) Volto para Braga. Mas o cinema já fechou. E como estou um bocado tonto, passeio um bocado. Onde será o 28? Volto para a pensão. Lá estão os dois rapazolas; ou serão outros, parecidos?

Pergunto:

- Que tal esse cinema?

- Não foi mau - responde com ar zangado.

Ora vão pró caralho! Não aturo meninos depois de ter tido homens na mão. Bebo não bebo mais verde? bebo não bebo mais cerveja? ou uma água Castelo? Fumo? Peço mais fiado? Volto a passear e aproveito para meter aqui o episódio da excursão vianense.

(...) Vou para a cama. O vinho pesa-me na cabeça. Bebo água fria para desenjoar a gorja. Durmo como um bendito. Acordo no escuro, cedo, 5 ou 6 horas, há um grupo na Pensão que se esta a levantar, batem portas. Estou excitadíssimo. O meu homem virá ao encontro? Onde o hei-de meter? Nestes quartos ouve-se tudo.

Abjecção. Remorsos. Decido não ir. Misturo a Deolinda com o António e sem mexer na picha estou quase a vir-me. De repente, tudo é tão violento que tenho de bater uma punheta.

Luiz Pacheco,
Contraponto, 1970.
Desenho de Carlos Ferreiro, Luiz Pacheco

quarta-feira, 9 de maio de 2007

Comunidade

[Extractos]

Estendo o pé e toco com o calcanhar numa bochecha de carne macia e morna; viro-me para o lado esquerdo, de costas para o candeeiro; e bafeja-me um hálito calmo e suave; faço um gesto ao acaso no escuro e a mão, involuntária tenaz de dedos, pulso, sangue latejante, descai-me sobre um seio morno nu ou numa cabecita de bebé, com um tufo de penugem preta no cocuruto da careca, a moleirinha latejante; respiramos na boca uns dos outros, trocamos pernas e abraços, bafos suor uns com os outros, uns pelos outros, tão conchegados, tão embrulhados e enleados num mesmo calor como se as nossas veias e artérias transportassem o mesmo sangue girando, palpitassem, compassadamente, silenciosamente, duma igual vivificante seiva.

(...)

Somos cinco numa cama. Para a cabeceira, eu, a rapariga, o bebé de dias; para os pés o miúdo e a miúda mais pequena. Toco com o pé numa rosca de carne meiga e macia: é a pernita da Lina, que dorme à minha frente. Apago a luz cansado de ler parvoíces que só em português é possivel ler, e viro-me para o lado esquerdo: é um hálito levemente soprado, pedindo beijos no escuro que me embala até adormecer. Voltamo-nos, remexemos, tomados pelo medo de estarmos vivos, pela alegria dos sonhos, quem sabe!, e encontramos, chocamos carne, carne que não é nossa, que é um exagero, um a-mais do nosso corpo mas aqui, tão perto e tão quente, é como se fosse nossa carne também: agarrada (palpitante, latejando) pelos nossos dedos; calada (dormindo, confiante) encostada ao nosso suor.

(...)

Luiz Pacheco,
("Comunidade", Contraponto, 1964)

sexta-feira, 4 de maio de 2007

Histórias de Almanaque


O médico Hunain e o Califa

O médico Hunain foi chamado à presença do califa. O califa queria veneno para os seus inimigos. Prometeu ao médico riquezas se ele obedecesse e a prisão, se levantasse dificuldades.
Depois de passar um ano na cadeia, Hunain foi de novo arrastado até à base do trono. De um lado, amontoavam-se pedras preciosas, no outro lado viam-se instrumentos de tortura. O califa apontou com o dedo primeiro para um monte, depois para o outro.
«O que é que vai ser?» perguntou ele. Hunain respondeu-lhe: «Eu só aprendi a arte de curar, mais nenhuma outra.» O califa fez sinal ao carrasco e Hunain, sentindo chegada a hora derradeira, disse: «No dia do juízo, Deus me recompensará. Se o califa quer cometer um pecado, isso é lá com ele.» O sorriso do califa quebrou a tensão. Nunca fora sua intensão ferir o médico; apenas queria pôr à prova a sua honestidade.

Bertold Brecht

sábado, 28 de abril de 2007

Histórias de Almanaque


A guerra dos Balcãs

Um homem velho e doente seguia por um campo fora. Quatro rapazes assaltaram-no e despojaram-no dos seus haveres. O velho seguiu contristado o seu caminho. Mas no cruzamento seguinte viu, com grande espanto seu, que três dos ladrões assaltavam o quarto para lhe tirarem o produto do roubo. Este, no entanto, caiu no chão durante a refrega. Cheio de alegria, o velho juntou-o e apressou-se a sair dali. No entanto, foi detido na cidade mais próxima e levado à presença do juiz. Os quatro rapazes lá estavam e apresentaram queixa contra ele, agora de novo unidos. O juiz, porém, decidiu da seguinte maneira: O velho tinha que devolver todos os seus bens aos rapazes. «Caso contrário», disse o sábio e justo juiz, «os quatros indivíduos ali presentes poderiam causar distúrbios no país.»

Bertold Brecht

segunda-feira, 16 de abril de 2007

Histórias de Almanaque


A Iluminação

Um homem de meia idade passeava uma tarde na Alameda dos Choupos quando, ao ver um cão grande que andava atrás das pombas ao longo de um ribeiro escuro, se apercebeu de que não era desejado. Seguiu imediatamente para casa.
Nada de especial tinha acontecido nesse dia. Os negócios corriam-lhe bem, na única rapariga das suas relações que não era estúpida. Alguém contara de manhã no barbeiro a história do pequeno Apfelböck que, com treze anos, assassinara a tiro os pais. O homem tinha os joelhos a tremer ao subir as escadas. Quando se ocupava de novo com o estudo do caso Apfelböck (o rapaz guardara os cadáveres dos pais num caixote durante sete dias), ocorreu-lhe subitamente a ideia de que no dia seguinte poderia matar, sem mais, o dentista, talvez com a faca. O dentista tinha o pescoço gordo e branco. Mas podia também não o matar.
Queria sentar-se ao piano para tocar Haydn; mas Apfelböck tinha esperado sete dias, e durante esse tempo (por causa do cheiro) tinha ido primeiro para o canapé da sala de estar e depois para a varanda. Isso é que Haydn não conseguia fazer esquecer.
O homem andou às voltas no quarto escuro de uma janela para a outra; olhava para o vazio, para os telhados azuis na distância e torcia as mãos. Não era possível aguentar isto. Faziam agora sete dias.
Deitou-se então na cama. Ninguém era responsável, pensou ele.
O astro é puramente provisório. Gira sibilando juntamente com muitos outros, numa fila de matéria astral, em volta de uma estrela da Vila Láctea. Não se pode ter qualquer responsabilidade num astro como este, pensou ele. Mas então fez-se demasiado escuro na cama.

Teve de se levantar e de acender velas; encontrou cinco. Pegou nelas, acendeu-as e dispô-las nas extremidades da cama: duas á cabeceira, duas aos pés e uma em cima da mesinha de cabeceira. Eram cinco luzes. Isto deve ter qualquer significado, pensou. Então, depois de ter tido todo este trabalho, sentiu o cheiro dos cadáveres dos pais. Teria de ir para a varanda? Isso é que ele não fazia de modo algum. Tratava-se de fantasmagorias. Também não havia varanda.

Se eu morresse, disse o homem de si para si; mas não se consegue sair do círculo. Estou apanhado. A coberta é vermelha, quer eu queira quer não queira, mesmo que eu morra continua vermelha. A coberta é mais forte do que eu. Não tem de certeza qualquer desejo. Não pode tornar-se idiota.
As moscas zumbiam. Apanhou uma. Para isso ajoelhou-se na cama e moveu-se ao longo da parede com as mangas da camisa a esvoaçar. À luz de cinco velas. Quando a apanhou, pensou: Uma ocupação útil à hora da morte.
Se eu morresse, pensou. Gostaria de ter um filho. Talvez eu tenha um filho. Se eu morrer, nenhum galo cantará. Se continuar vivo, também nenhum galo cantará. Faça eu o que fizer, nem um só cantará.
O homem levantou-se inquieto e vestiu um capote militar por cima da camisa. Saiu assim para a rua. Não estava demasiado escuro; viam-se passar nuvens, húmidas, acasteladas.
As chaminés negras recortavam-se rígidas contra o céu. O homem seguiu caminho, com as mãos nos bolsos. Murmurava: «Como são doces as lágrimas de uma noiva, quando o noivo lhe dá um soco nos olhos.» Depois, estugou o passo, ultrapassou outros transeuntes, cantando por fim em voz alta, em camisa, pois desfizera-se do capote - não era preciso capote num astro como este.
Corria cantando salmos pelas ruas e não quis saber de mais nada.

Bertold Brecht

sexta-feira, 13 de abril de 2007

19 de Abril, Sessão de lançamento "O Tempo das Giestas"

Foi no ano de 2002 que José Casanova fez a sua estreia literária, presenteando-nos com o romance “O Caminho das Aves”. Um romance que nos dá um retrato dos tempos do fascismo, uma visão da luta travada pela geração de 60 contra a violenta repressão fascista. Francisco com os seus camaradas e amigos fazem parte dessa luta resistente. Mas este “Caminho das Aves” – para quem não o leu, aconselho vivamente – traz-nos também os amores e desamores, deu-me a mais bela definição da amizade, que é “a amizade é a entrega em troca de nada, dispensa condições, não as suporta aliás”.

Como a caneta de quem escreveu um “O Caminho das Aves” não podia ficar parada, chegou-nos, em 2005, “Aquela Noite de Natal”. A história decorre na mesma época e com os mesmos personagens do antecedente. Nas palavras de um amigo “este livro é um hino ao amor”. Concordo plenamente, os leitores sentem um enorme sôfrego até chegar ao fim da história para assistir ao que o narrador nos escondia, um ternurento momento.

E porque não há duas sem três, e tudo isto na sequência do meu post anterior, chega-nos a terceira obra deste autor, “O Tempo das Giestas”. Que promete ser tão empolgante e viciante quanto os antecedentes.
Desta forma a não perder a apresentação, esta semana, do novo romance, de José Casanova.

O Tempo das Giestas
Dia 19 de Abril – 18h30 – Casa do Alentejo (Rua das Portas de Santo Antão - Lisboa), com apresentação de Domingos Lobo.

O Tempo das Giestas

Chove, agora, uma chuva miudinha, embora contínua. O vento, depois do temporal que durante a noite assolou o Tejo, amainou e sopra fraco. As gaivotas serenaram, pairam sobre o rio, soltam os seus gritos de tempo de bonança, fazem voos picados como se fossem mergulhar e elevam-se, roçando as águas, amiúde com peixes presos nos bicos.
Simão espera-a junto à Torre, abrigado no seu guarda-chuva grande, acompanhando os movimentos das gaivotas, agora voltando-se, vendo-a, dirigindo-se-lhe em passo acelerado, quase a correr, a correr, no rosto um sorriso feliz. Pega-lhe nas mãos, segurando o guarda-chuva com o pescoço e o ombro: Ainda bem que vieste — murmura. Depois tira-lhe a sombrinha, devolve-lha fechada, ficam os dois sob o guarda-chuva, repete: Ainda bem que vieste.

Excerto retirado do livro "O Tempo das Giestas" de José Casanova